Uma ave ligada às florestas, aos ervais e à biodiversidade da região agora também representa oficialmente a fauna de São Mateus do Sul.
O papagaio-de-peito-roxo (Amazona vinacea) foi instituído como símbolo da fauna local pela Lei Municipal nº 3.368, de 15 de dezembro de 2025.
O reconhecimento ajuda também a dar visibilidade a uma iniciativa que nasceu dentro do próprio município: o Projeto Papagaio dos Ervais, idealizado por Alfredo Ferraz, que busca aproximar a população da espécie, ampliar o conhecimento sobre sua importância e estimular sua conservação.
Com a ave oficialmente reconhecida como símbolo, uma das prioridades deste momento é justamente tornar o projeto conhecido pela população, instituições e possíveis parceiros, construindo as bases para o desenvolvimento de novas ações no futuro.
O projeto conta ainda com a parceria da BIOSENSU Consultoria Ambiental, que contribui com conhecimento técnico voltado à conservação da espécie.
O papagaio-de-peito-roxo é uma espécie restrita ao bioma Mata Atlântica, com ocorrência no Brasil, Paraguai e Argentina. No território brasileiro, está associado principalmente a ambientes florestais das regiões Sul e Sudeste e possui uma relação especialmente importante com as florestas com araucária. (ScienceDirect)
A espécie é considerada ameaçada de extinção. Na lista nacional vigente, atualizada pelo Ministério do Meio Ambiente e Mudança do Clima em 2026, o papagaio-de-peito-roxo está classificado como Vulnerável (VU). No Paraná, também é reconhecido como Vulnerável, enquanto avaliações internacionais o classificam como Em Perigo. (GOV.BR)
Para Guilherme Lessa Ferreira, biólogo da BIOSENSU e parceiro do Projeto Papagaio dos Ervais, conhecer essa relação entre a ave e a floresta ajuda a compreender por que sua conservação é tão importante.
“O papagaio-de-peito-roxo é uma espécie emblemática, pois só existe na Mata Atlântica. Vive nas florestas de araucária, onde representa um elo importantíssimo na cadeia: além de se alimentar do pinhão também pode plantá-lo.”
A expressão utilizada pelo biólogo encontra respaldo em estudos sobre a relação entre os papagaios e a araucária. Pesquisas registraram o papagaio-de-peito-roxo consumindo, transportando e eventualmente dispersando sementes de Araucaria angustifolia. Em alguns casos, sementes carregadas pela ave foram transportadas por dezenas ou até mais de cem metros. (PubMed Central (PMC))
É uma relação na qual a floresta oferece alimento à ave e a própria ave pode contribuir para a dinâmica e renovação da floresta.
O papagaio-de-peito-roxo já teve uma distribuição mais ampla. Hoje, suas populações encontram-se fragmentadas e a espécie desapareceu de áreas onde ocorria historicamente.
Entre as principais ameaças estão a perda e fragmentação dos ambientes naturais e a captura ilegal de ovos e filhotes para manutenção em cativeiro. Essas ameaças também são reconhecidas pelo Plano de Ação Nacional para Conservação dos Papagaios, coordenado pelo ICMBio. (GOV.BR)
É justamente nesse contexto que o Projeto Papagaio dos Ervais pretende atuar.
Segundo Guilherme, a iniciativa busca fortalecer a conservação da espécie na região de São Mateus do Sul, ampliando o conhecimento sobre os animais que ainda vivem na natureza, conscientizando a população e estruturando novas ações de proteção.
O horizonte é contribuir para que uma ave que já foi mais presente na região possa voltar a ser observada com maior frequência pelas próximas gerações.
A conscientização da população é considerada uma das bases do projeto.
Para Fernando Igor de Godoy, biólogo e ornitólogo da BIOSENSU Consultoria Ambiental e parceiro do Projeto Papagaio dos Ervais, a crescente distância entre as pessoas e a natureza torna ainda mais importante apresentar a biodiversidade existente no próprio território.
Fernando destaca que o papagaio-de-peito-roxo possui uma plumagem peculiar, com a característica coloração arroxeada do peito, e que sua presença pode ajudar a despertar o interesse das pessoas pela conservação da Mata Atlântica e das florestas com araucária.
A conscientização envolve também compreender que animais silvestres pertencem à natureza.
“Cada papagaio que permanece livre na natureza representa uma oportunidade para que a espécie continue existindo e encantando as próximas gerações. O papagaio-de-peito-roxo é parte da nossa natureza e do nosso patrimônio natural: cabe a todos nós ajudar a garantir que ele continue voando livre nas nossas florestas.”
Entre as atitudes importantes apontadas pelo especialista estão evitar a destruição dos ambientes naturais e queimadas, combater a captura de animais silvestres e preservar árvores e cavidades utilizadas pela fauna para abrigo e reprodução.
Isso é particularmente relevante para o papagaio-de-peito-roxo porque a espécie utiliza cavidades naturais de árvores para nidificar. Estudos realizados na Mata Atlântica mostram que a disponibilidade desses locais pode ser um fator importante para sua reprodução. (OUP Academic)
O nome Papagaio dos Ervais traduz também a proposta de construir uma ligação entre biodiversidade e identidade local.
Na simbologia desenvolvida pelo projeto, características da ave são associadas a elementos da história e da cultura são-mateuense.
O verde predominante de sua plumagem remete aos ervais e à erva-mate, elementos profundamente ligados à formação econômica, cultural e paisagística de São Mateus do Sul.
A característica tonalidade arroxeada do peito estabelece outra ligação visual proposta pelo projeto. A coloração lembra tons encontrados na rebrota da erva-mate e também na pinha da araucária, reforçando a conexão entre o animal e elementos presentes na paisagem regional.
O canto da ave é associado à hospitalidade e à comunicação, enquanto seu voo inspira significados ligados à determinação e à liberdade.
São interpretações simbólicas construídas pelo Projeto Papagaio dos Ervais — e não características estabelecidas pela legislação — para aproximar a população da espécie e fortalecer o sentimento de pertencimento.
A Lei Municipal nº 3.368/2025 não se limita a reconhecer a ave como símbolo.
A legislação associa esse reconhecimento à conservação ambiental e prevê frentes como educação ambiental em escolas e comunidades, proteção de habitat, monitoramento da população da espécie e acompanhamento de ninhos naturais e artificiais.
Também estão previstas possibilidades relacionadas à cultura, ao turismo e à economia local, incluindo manifestações artísticas e produtos que utilizem a imagem da ave para fortalecer a identidade do município.
Essas possibilidades, entretanto, não significam que todas essas ações já estejam implantadas.
Neste momento, diferentes frentes ainda estão em diálogo e estruturação.
Entre as ideias discutidas estão atividades futuras de conscientização ambiental, aproximação com as escolas, identificação de áreas de ocorrência da espécie, participação de propriedades rurais e desenvolvimento de estratégias de monitoramento.
Uma das frentes que está sendo estruturada pelo projeto é o monitoramento.
Conhecer quantos animais existem, onde estão, quais áreas utilizam para alimentação, onde dormem e quais locais são utilizados para reprodução pode fornecer informações importantes para definir ações futuras.
Projetos de conservação desenvolvidos no Paraná já utilizam esse tipo de metodologia, incluindo identificação de populações, dormitórios e sítios reprodutivos do papagaio-de-peito-roxo. (Instituto Ambiental do Paraná)
Também está em estudo, para etapas futuras e sempre com orientação técnica, o acompanhamento de ninhos naturais e a possibilidade de utilização de estruturas artificiais quando houver indicação de sua necessidade.
Neste momento, entretanto, essa frente permanece em estruturação.
A aproximação com crianças e adolescentes é outra possibilidade prevista para o desenvolvimento do projeto.
A própria Lei nº 3.368/2025 estabelece a educação ambiental entre suas frentes e prevê programas educativos em escolas e comunidades para apresentar a importância da espécie e as ameaças que ela enfrenta.
A proposta poderá futuramente permitir que estudantes aprendam a reconhecer a ave, conheçam sua relação com a Mata Atlântica, a araucária e a erva-mate e compreendam por que animais silvestres devem permanecer livres na natureza.
A implantação dessa frente ainda depende das articulações e definições junto às áreas envolvidas.
Antes das próximas etapas, existe um objetivo fundamental:
fazer com que o Projeto Papagaio dos Ervais seja conhecido.
Que a população conheça a espécie escolhida para representar sua fauna.
Que compreenda por que o papagaio-de-peito-roxo precisa de conservação.
Que conheça a iniciativa idealizada por Alfredo Ferraz.
E que entidades, pesquisadores, escolas, proprietários rurais, instituições e possíveis parceiros saibam que existe em São Mateus do Sul um projeto disposto a construir ações de longo prazo em torno da conservação da espécie.
O reconhecimento oficial pela Lei nº 3.368/2025 foi um passo importante.
Agora, o projeto busca ampliar conhecimento, aproximar pessoas e construir parcerias para que novas ações possam ser desenvolvidas de forma responsável.
O papagaio-de-peito-roxo não representa São Mateus do Sul apenas por suas cores.
Representa uma biodiversidade que ainda está presente na região, uma ligação entre fauna, araucárias e ervais e uma oportunidade de fazer da identidade local também uma ferramenta de conservação.
Conhecer. Reconhecer. Preservar.
Porque, mais do que representar São Mateus do Sul, o papagaio-de-peito-roxo precisa continuar fazendo parte dela.









